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About Literature / Hobbyist Member Pedro Alves29/Male/Portugal Recent Activity
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.

O ideal de plantar amor
muitas vezes
Equipara-se ao plantar de uma árvore
Cuidas dela, tens todos os cuidados
rega-la até que comece a brotar
a florescer
e gradualmente vai crescendo
Muitas vezes
poderás sentir que nada dela recebes em troca
mas no fundo
é o que te mantém vivo
Muitas vezes
Sem disso te aperceberes
Porque o amor é um vasto bosque por cuidar
E tu és só um homem
cujas mãos e espírito cansados cedem a par e passo
porque todas as árvores que outrora plantaste arderam
todo o amor que sentiste tornou-se cinzas
e contornas assim o bosque
muitas vezes
olhando-o de soslaio
Imaginando o quão verde e vivo poderia ser
se ao menos as árvores
amassem de volta

.

Pedro Alves
.

Jamais pronunciarei nomes que não o meu
o mesmo que horas mantive guardado em gavetas
aquele que nunca quis que por lábios alheios fosse pronunciado
porque dita tão bem o que agora sou
apesar de sólido e imóvel e inabalável por fora
ser por dentro frágil quanto um floco de neve
e nos meus gestos reconheço-me nos meus pequenos gestos
porque esses pequenos gestos são uma manifestação do que sou
bruscos, efémeros, olvidáveis
e a minha expressão por muito fria e severa
transparece o mundo e todos os seus séculos no contrair dos músculos
dos tendões da carne e sangue que compõem o meu corpo
este corpo que nunca quis ser o meu corpo
porque nunca desejei de todo ter qualquer corpo
nunca pedi para que fosse minha posse, única e irrevogável
contudo todo o universo me cobra por isso
uma dívida que apenas expirará com o meu último expirar
aquele com que pagarei de vez
o preço de ser trazido ao mundo, a este cruel e repugnante mundo
sem ter hipótese sequer de escolha

.

Pedro Alves
.

À terceira hora da madrugada
pende sobre mim o peso colossal da noite
do silêncio e da solidão
pesam-se-me finalmente as pálpebras
e o corpo gradualmente cede à dormência
este molda-se à poltrona
ou à cama, onde estiver
revolve-se procurando conforto
mas somente encontra o limbo
encontra o passar lentíssimo das horas
e o dançar dos vultos que os candeeiros da rua na parede projectam
hipnoticamente
despenho-me em câmara lenta sobre a obscuridade
mergulho
e na negritude do sono sufoco procurando a superfície
acordo
adormeço
acordo
adormeço
Tantas vezes seguidas
E entre nenhuma delas aprendo a respirar no meu sono

.

Pedro Alves
.

Acordar
resmungar até à casa de banho, mijar, cagar, tirar as ramelas dos olhos
tomar banho, tomar o pequeno almoço e a medicação
Lavar os dentes, amanhar os cabelos, contemplar o espelho
vestir, calçar, pegar nas coisas
a carteira, o telefone, as chaves, o passe
O porta-moedas rachado que me faz perder dinheiro
sair de casa, trancar a porta, enfrentar o dia, a rua, a luz do Sol
seguir caminho para a paragem do autocarro
vagarosamente
perder o autocarro e esperar pelo próximo
observar o acumular de gente na paragem como se esta fosse um funil congestionado
entro no autocarro seguinte, encontro um espaço para mim
o funil imaginário enche-o de gente até eu não conseguir respirar mais
chegar aos barcos para Lisboa, sentar no banco mais distante e isolado que encontro
dormir acordado uma dúzia e meia de minutos
e acordar com o impacto do barco a atracar no Terreiro do Paço
Não tento furar a multidão que, esganada, quer sair pela minúscula balsa
todos ao mesmo tempo
fico para trás até ter espaço para sair sem ser esmagado por ninguém
sigo caminho até ao metro, desço todas as escadas, chego à plataforma e espero
espero
e espero e espero
enquanto a multidão se multiplica, se expande e cresce como se fosse um cancro
o comboio chega e o cancro tenta invadi-lo, célere, como que a uma célula saudável
uma vez cheia, comigo inclusivé, a carruagem fecha as portas, segue caminho até à Baixa
troco de linha e repito o processo
encontro-me em mais uma carruagem de metro que transborda pessoas, transborda cancro
chego ao trabalho, sento-me na minha secretária
esfrego os olhos, bocejo, belisco-me, espreguiço-me
desespero
tenho finalmente sono
oito horas passam, incluindo uma de almoço, nove
chega a hora de sair do meu trabalho e regresso ao metro
o mesmo processo se repete mas no sentido inverso
agora com o fedor humano como agravante
sentir-me nauseado com a interacção entre as pessoas
com os sorrisos, as vozes, as conversas
a felicidade alheia
tolerar esta condição até conseguir chegar a casa
tentar sobreviver ou não ser preso até lá
chego finalmente, hora e meia depois
descalço-me, dispo-me, sento-me na poltrona
deixo as horas passarem em frente ao monitor do computador
janto entretanto
e quando me apercebo o ser tarde já foi há muito
deito-me na cama sem a desfazer porque o calor já é demasiado
viro-me para um lado
depois para o outro
eventualmente deixo-me estar virado para cima
vejo as horas e dentro de uma hora o Sol nascerá outra vez
Pergunto-me porque não posso, como o Sol, nascer outra vez
todos os dias

Repete

.

Pedro Alves

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carneviva
Pedro Alves
Artist | Hobbyist | Literature
Portugal
Current Residence: Barreiro
Favourite genre of music: Muitos
Operating System: Windows 7
MP3 player of choice: Ipod Classic 160GB e Winamp
Skin of choice: Branca
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Comments


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:iconsumarlegur:
sumarlegur Featured By Owner Jul 6, 2014  Hobbyist General Artist
fiz-te watch para ler as tuas coisas por dois motivos:

1) o que escreves tem valor;
2) estou a passar por algo similar a ti, que é a malta ir desertando o dA e cada vez menos gente ler as tuas coisas. a ver se isso muda. já vi que estás em alguns grupos, mas tenta procurar outros que também aceitem literatura (tens vários por onde escolher na minha página, por exemplo).
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:iconcarneviva:
carneviva Featured By Owner Jul 12, 2014  Hobbyist Writer
Obrigado pelas palavras. Vou dar uma vista de olhos então! Abraço!
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:iconaroma01:
aroma01 Featured By Owner Jun 7, 2014  Hobbyist Traditional Artist
obrigado pelo fav!!
Reply
:iconcarneviva:
carneviva Featured By Owner Jun 15, 2014  Hobbyist Writer
Ora essa. : )
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:iconrotemavid:
Rotemavid Featured By Owner Jun 1, 2014  Professional General Artist
Obrigado pelo fave, agradeço imenso ;)
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