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About Literature / Hobbyist Pedro Alves32/Male/Portugal Recent Activity
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Literature
O ideal de plantar amor
.
O ideal de plantar amor
muitas vezes
Equipara-se ao plantar de uma árvore
Cuidas dela, tens todos os cuidados
rega-la até que comece a brotar
a florescer
e gradualmente vai crescendo
Muitas vezes
poderás sentir que nada dela recebes em troca
mas no fundo
é o que te mantém vivo
Muitas vezes
Sem disso te aperceberes
Porque o amor é um vasto bosque por cuidar
E tu és só um homem
cujas mãos e espírito cansados cedem a par e passo
porque todas as árvores que outrora plantaste arderam
todo o amor que sentiste tornou-se cinzas
e contornas assim o bosque
muitas vezes
olhando-o de soslaio
Imaginando o quão verde e vivo poderia ser
se ao menos as árvores
amassem de volta
.
Pedro Alves
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Literature
Contra-vontade
.
Jamais pronunciarei nomes que não o meu
o mesmo que horas mantive guardado em gavetas
aquele que nunca quis que por lábios alheios fosse pronunciado
porque dita tão bem o que agora sou
apesar de sólido e imóvel e inabalável por fora
ser por dentro frágil quanto um floco de neve
e nos meus gestos reconheço-me nos meus pequenos gestos
porque esses pequenos gestos são uma manifestação do que sou
bruscos, efémeros, olvidáveis
e a minha expressão por muito fria e severa
transparece o mundo e todos os seus séculos no contrair dos músculos
dos tendões da carne e sangue que compõem o meu corpo
este corpo que nunca quis ser o meu corpo
porque nunca desejei de todo ter qualquer corpo
nunca pedi para que fosse minha posse, única e irrevogável
contudo todo o universo me cobra por isso
uma dívida que apenas expirará com o meu último expirar
aquele com que pagarei de vez
o preço
:iconcarneviva:carneviva
:iconcarneviva:carneviva 0 5
Literature
A terceira hora
.
À terceira hora da madrugada
pende sobre mim o peso colossal da noite
do silêncio e da solidão
pesam-se-me finalmente as pálpebras
e o corpo gradualmente cede à dormência
este molda-se à poltrona
ou à cama, onde estiver
revolve-se procurando conforto
mas somente encontra o limbo
encontra o passar lentíssimo das horas
e o dançar dos vultos que os candeeiros da rua na parede projectam
hipnoticamente
despenho-me em câmara lenta sobre a obscuridade
mergulho
e na negritude do sono sufoco procurando a superfície
acordo
adormeço
acordo
adormeço
Tantas vezes seguidas
E entre nenhuma delas aprendo a respirar no meu sono
.
Pedro Alves
:iconcarneviva:carneviva
:iconcarneviva:carneviva 0 2
Literature
Repete
.
Acordar
resmungar até à casa de banho, mijar, cagar, tirar as ramelas dos olhos
tomar banho, tomar o pequeno almoço e a medicação
Lavar os dentes, amanhar os cabelos, contemplar o espelho
vestir, calçar, pegar nas coisas
a carteira, o telefone, as chaves, o passe
O porta-moedas rachado que me faz perder dinheiro
sair de casa, trancar a porta, enfrentar o dia, a rua, a luz do Sol
seguir caminho para a paragem do autocarro
vagarosamente
perder o autocarro e esperar pelo próximo
observar o acumular de gente na paragem como se esta fosse um funil congestionado
entro no autocarro seguinte, encontro um espaço para mim
o funil imaginário enche-o de gente até eu não conseguir respirar mais
chegar aos barcos para Lisboa, sentar no banco mais distante e isolado que encontro
dormir acordado uma dúzia e meia de minutos
e acordar com o impacto do barco a atracar no Terreiro do Paço
Não tento furar a multidão que, esganada,
:iconcarneviva:carneviva
:iconcarneviva:carneviva 0 4
Literature
Escolher ignorar a realidade
.
Escolher ignorar a realidade
é convidar a loucura a bater-te à porta
servir-lhe um café, um prato de sopa
água
para que sacie a sua vampírica fome
drenando-te do que te compõe
ao mesmo tempo
consumindo cada ínfima percentagem de quem és
o que és
e ainda lhe ofereces sobremesa
sabendo que é preferível aceitar a loucura
à pujente facada diária aplicada pela sapiência
porque o mundo é vasto
quase tanto quanto a injustiça a corrupção a crueldade
e tu és só um
só um homem
somente um homem
fraco, gordo, apático, inerte, derrotado
pelas vicissitudes da vida
uma que não escolheste nem pediste
mas que podes escolher ignorar
para que não chores todos os dias em silêncio
.
Pedro Alves
:iconcarneviva:carneviva
:iconcarneviva:carneviva 1 2
Literature
O que eu mais odiava
.
Consigo lembrar o que mais odiava
e não era o teu rosto, a tua presença
as tuas fortes e pujantes mãos a marcarem-me a pele
mas o teu nome
sim, o teu nome, o meu nome
o meu sangue que é o teu sangue
que, podendo, destilaria de mim
tão facilmente quanto apagaria o teu nome
do meu nome
porque a merda que és é a merda que sou
e que se perpetuará caso um dia tenha filhos
mas ninguém merece ter o teu nome
ou o teu sangue
ninguém merece descender de ti
todavia eu mereci, creio
para estar aqui
ser isto que sou, ser este quem sou
e tudo aquilo que não sou
por ser parte de ti
Devo tudo o que não sou unicamente a ti
gostava de saber como consegues dormir à noite
ou se também as insónias herdei de ti
.
Pedro Carvalho
:iconcarneviva:carneviva
:iconcarneviva:carneviva 1 0
Literature
O pior
.
O que herdei dos meus pais
é o pior de ambos
Porque não se aprenderam a amar
desde o primeiro dia
um acidente
com um final feliz
houve quem dissesse
No fim, o fim que ainda não chegou
não tem nada de feliz
apenas o pior de ambos os meus pais
somado ao pior de mim
.
Pedro Carvalho
:iconcarneviva:carneviva
:iconcarneviva:carneviva 2 2
Literature
De vez
.
Estático
Rio abaixo flutuo como se sobre as núvens pairasse
planasse febre fora de asas esfarrapadas pelo vento
pelo toque frio sufocante do silêncio que me invade
que excomunga a paz, o catártico respirar de novo
pois o vácuo julguei de mim ter arrancado
exorcizado a palidez acre do pessimismo
mas os meus sonhos são negros cada vez mais negros
e sabem à terra molhada com que sepultam os mortos
sem que eu próprio consiga sequer morrer de vez
.
Pedro Carvalho
:iconcarneviva:carneviva
:iconcarneviva:carneviva 0 0
Literature
Sempre que desco esta rua
.
Desço a rua
de fardo pesado no corpo
no espírito
e no pensamento distantes
de mim
ao longe
reflexos de ouro avenida fora
ao findar da tarde
no seu vespertino colapsar
semelhante ao ruir
descontrolado do pensar
e do pesar
de cada passo de cada segundo
que arde furioso sequioso
no resguardado pulsar arrítmico
do relógio no peito
descendo a rua
nenhum rosto é claro que baste
só as silhuetas
os rastos de sombra
efémeros como o fumo de cigarros
ou a névoa de sonhos
conheço abraço abarco
o gume frio que rasga o solipsista
o rei do nada
das cinzas
que reina o cubo blindado do meu pensamento
onde o frio e o silêncio
eram a paz outrora utopia
agora somente um túmulo profanado
por essa rubra tempestade sibilante
Sempre que desço esta rua
.
Pedro Alves
:iconcarneviva:carneviva
:iconcarneviva:carneviva 0 0
Literature
Holocausto
.
Evito dizer “bom dia”
Deixei de perguntar se “está tudo bem”
porque sei que mo vão perguntar de volta
e eu não quero de todo responder a isso
a essa pergunta acre e mentirosa
cuja resposta é mais mentirosa ainda
Agora somente aceno
gesticulo, longínquo, mudo e inalcançável
porque a distância serve-me, também
quando preciso, porque muito dela preciso
para me sentir ilusoriamente seguro confortável
capaz
quando no fundo bem sei que sou apenas um reflexo
daquilo que quero que de mim vejam
sem saber ao certo o quanto de mim é visto
através das sombras e das tempestades que ergo
para me proteger do holocausto do pensamento
Pedro Alves
.
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Literature
Monologo
.
Diluídos os passos na embriaguez que se apodera de ti
que toma conta das tuas peugadas turvas impressas na areia
titubeias sem norte sem rumo para onde pousas o olhar
existe um trilho que se dirige para o olvidável
para a absoluta dissolução da tua maior enfermidade
esqueces-te das dores
das pungentes perfurações que te roubam a alma
e que no seu lugar plantam o sofrimento
esqueces-te de sentir porque sentir deixa-te exausto
repele a paz e a serenidade
estilhaça-te em mil e um bocados num solo que só tu vês
infértil
inóspito como o mais recôndito deserto inabitável por descobrir
um solo que só tu és

porque sempre foste só tu a sentar-te a esta mesa
foste sempre só tu a povoar as divisões desta casa
somente tu fizeste sempre companhia a ti mesmo
nas quatro paredes do teu quarto
o teu quarto o teu quartel o teu (des)governo a tua cabeça
tudo na tu
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Literature
Ultimo reduto
.
reduzi a minha existência ao mínimo que consigo
enclausurei-me entre as paredes cansativas do quarto
as persianas semi descidas como que uma cascata de penumbra que verte
que preenche este caixão que improvisei por ser mais fácil
que ir lá fora e comprar um
permitir que me tirem as medidas, que me julguem antes de finar de vez
sentir-me apunhalado pelos olhos dos cobardes que sobrevivem
somente porque sim
antes criar raízes aqui
entre os lençóis o conforto do colchão moldado ao corpo que se recusa a mover
porque o movimento pode ser audível
e nada pode perturbar o silêncio com que conquistei o que resta da minha sanidade
que poderia arder como um fósforo
tão efémero tão violento
quanto o céu a despenhar-se lá fora todos os dias sem que ninguém note
pois é tão silente tão mudo
o contraste da catástrofe que é o encadeamento dos m
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Literature
Carta
.
Quando na minha infância
me erguias a voz lá das alturas
- e tão alto que me parecias -
como que invencível, intransponível
intocável até
eu tremia
horrorizado pela voragem da tua ira
era isso que de mim exigias
impunhas-me o terror e o medo goela abaixo
tão violentamente
que sentia o meu estômago às voltas
sentia que o coração acelerava como que uma bomba-relógio
ansiosa por explodir
continha as lágrimas enclausurando a voz
e os meus olhos desenhavam no chão
o que o meu imaginário concebia como refúgio
sempre no silêncio
na fria mudez das horas que pareciam não passar
esperava
e fui esperando sempre
crescendo
até que cresci até esta altura
esta altura definitiva e que já é superior à tua
já não és tão imponente
as rugas e o cabelo grisalho amansaram-te
a inexperiente paternidade de que acabast
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:iconcarneviva:carneviva 0 2
Literature
Alguem que nao eu
.
Falas mas não dizes nada
Nada te sai dessa insolente boca para além do asco que me provocas
o caótico lixo
e a cega inconsciente verborreia provocante de quem pouco se importa com as consequências
é-te indiferente como afectas os nomes
porque nem os seus rostos recordas de tão céleres que passam
através da inércia do teu pensamento
Ao qual eu não ousaria chamar de pensamento porque não penso
que penses muito sobre a forma como falas
como dizes e te expressas
porque não te expremes nem tentas
por isso vais andando por aí
ouvindo e falando e vivendo por aí
por aqui, por acolá, por onde o fumo do tabaco te levar
onde o anestésico afogar da bebida te purgar dos medos e complexos
ou assim o esperas
porque só assim te suportas
somente assim te toleras enquanto deambulas
em busca de alguém que te explique como te sobreviveres
alguém que não eu
.
Pedro
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Literature
N.D.E.
.
E enquanto lá estive não senti a paz de que falam
os homens e as mulheres que alegam ter por minutos conhecido o atravessar do limbo
dizem ter experienciado um outro lado da vida digno de qualquer fábula
eu só senti vazio
e frio
um frio tão pungentemente gélido que me senti como que a ser imolado
envolto por um silêncio tão absoluto que qualquer som que tentava pronunciar era imediatamente consumido pelo vácuo
tudo isto me transtornou desmedidamente
sentir-me mudo surdo aprisionado num buraco negro como os que a astrofísica descreve
mas porém inteiro
talvez a física ainda desconhecida dos buracos negros não seja simplesmente destrutiva como se supõe
mas apenas um repositório onde as almas que partem são enclausuradas
Para serem reutilizadas à medida que o Cosmos se expande e recicla
da mesma forma que reciclamos os sentimentos e as palavras e os sonhos
a cada novo aco
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Literature
Batimento cardiaco
.
O meu batimento cardíaco
o distorcer reverberante que ecoa entre as minhas dissolventes paredes de ossos e cartilagem
contam o tempo
ardendo
consumindo-se, volatilmente, entre a floresta de veias e artérias que povoam a casa que sou
entre as árvores a névoa a mudez despida da clausura da voz
no sotão um planeta longínquo colapsa
desmonrona-se porque não suportou o peso de tantos nomes
no seu pueril útero enterrados
.
Pedro Alves
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Afinal ainda existe.

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carneviva's Profile Picture
carneviva
Pedro Alves
Artist | Hobbyist | Literature
Portugal
Current Residence: Barreiro
Favourite genre of music: Muitos
Operating System: Windows 7
MP3 player of choice: Ipod Classic 160GB e Winamp
Skin of choice: Branca
Interests

Comments


Add a Comment:
 
:iconsumarlegur:
sumarlegur Featured By Owner Jul 6, 2014  Hobbyist General Artist
fiz-te watch para ler as tuas coisas por dois motivos:

1) o que escreves tem valor;
2) estou a passar por algo similar a ti, que é a malta ir desertando o dA e cada vez menos gente ler as tuas coisas. a ver se isso muda. já vi que estás em alguns grupos, mas tenta procurar outros que também aceitem literatura (tens vários por onde escolher na minha página, por exemplo).
Reply
:iconcarneviva:
carneviva Featured By Owner Jul 12, 2014  Hobbyist Writer
Obrigado pelas palavras. Vou dar uma vista de olhos então! Abraço!
Reply
:iconaroma01:
aroma01 Featured By Owner Jun 7, 2014  Hobbyist Traditional Artist
obrigado pelo fav!!
Reply
:iconcarneviva:
carneviva Featured By Owner Jun 15, 2014  Hobbyist Writer
Ora essa. : )
Reply
:iconrotemavid:
Rotemavid Featured By Owner Jun 1, 2014  Professional General Artist
Obrigado pelo fave, agradeço imenso ;)
Reply
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