
Ofidiario . 14042013.Ofidiario . 14042013 by ~carneviva
As serpentes que se beijam, insaciáveis, incendiárias
enternecem-se com o enraizar das suas línguas nas suas línguas
como as horas e o apetite voraz do tempo devorante
que drenam a água a força e as lágrimas e os fluidos todos do corpo
de cada corpo que não é nada mais que mera carne e ossos e sangue
e um veículo para alguma coisa que não se sabe ao certo o que é
mas que cada um de nós pensa ser mais que apenas uma simples carcaça
na realidade somos apenas serpentes somos as horas que passamos como passamos
e a voracidade do desejo e dos sonho

A paz falaciosa do sonambulismo . 11032013.A paz falaciosa do sonambulismo . 11032013 by ~carneviva
Sônambulo, o corpo erra, ainda que de olhos escancarados
enfrentando a luz do dia moribundo à nascença
enquanto o espírito deambula e se dispersa no turbilhão da embriaguez
em busca do seu paraíso e refúgio secreto onde se enraizar
como a árvore em que se poderia tornar um dia
permitindo à vida que florescesse, inofensiva e em paz
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Pedro Alves

A ferro e fogo . 09032013.A ferro e fogo . 09032013 by ~carneviva
Há fogos que lavram em nós que são inextinguíveis
E por muito que os tentemos apagar só os adormecemos
porque pensamos que o tempo cura da mesma forma que faz crescer
quando a única coisa que faz é enclausurar as cicatrizes debaixo da roupa
escondêmo-las sobre o cetim, a seda e o algodão e as rendas e até mesmo
sob as tatuagens
porque queremos tornar uma memória horrível em algo belo, artístico
transfigurar a dor em prazer para que assim faça algum sentido
Pois ser humano é ser um bosque por arder
É propormo-nos à dor apenas para nos sentirmos vivos
Sentir que as labaredas que nos devastam por dentro
Servem um propósito mesmo que não haja

Tento sobreviver a isto . 04032013.Tento sobreviver a isto . 04032013 by ~carneviva
Tento sobreviver a isto
sobreviver-te
porque desde que entraste no beco sem saída
que é a minha vida que me sinto ainda mais perdido
desorientado e destruído
porque essa luz que irradias é somente uma miragem
no deserto de onde tento fugir em vão há tantos anos
enquanto aí te escondes detrás do conforto do vidro
intransponível e opaco
enfraqueço e desmorono como se fosse a areia molhada
com que construiste este teu castelo
com as tuas mãos delicadas à beira do rebentar das ondas
onde poderás erguer outros que possas destruir
a teu bel-prazer
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Pedro Alves