O que é meu eu nunca soube Mas sei o que me foi retirado Sinto ainda o despregar da vida do meu corpo Como um nado-morto arrancado a ferros Mas eu eu continuei vivo Desafiando a racionalidade e a biologia humana De que não se escapa Mas eu ainda ando ainda olho ainda procuro Um refúgio ou um nome um abraço ou um coração Onde me abrigar do fim do mundo Porque o inferno que muitos temem já eu vivo E nele caminho há já muitos anos Habituei-me a ele como quem se habitua à ausência de um braço Ou de uma perna Ou de um coração que foi arrancado de mim antes de o sentir bater Às vezes sinto-o bater ao longe palpitando como que se me chamando Percorro os destroços das ruas desviando-me das labaredas que me lambem como línguas esfomeadas Desvio-me dos corpos e dos nomes e das memórias impressas nas paredes e nas horas Que já passei a deambular por este inferno Por este fim de mundo Caminho tanto até não poder mais e é quando ouço o palpitar cessando O bater do meu coração longínquo acalmando-se Páro sem saber onde estou ou onde está o que é meu que me foi retirado Que nunca soube ou senti ser meu O seu nome ou feitio o meu sangue que afinal não é meu Pois o que é meu eu nunca soube