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Acordar
resmungar até à casa de banho, mijar, cagar, tirar as ramelas dos olhos
tomar banho, tomar o pequeno almoço e a medicação
Lavar os dentes, amanhar os cabelos, contemplar o espelho
vestir, calçar, pegar nas coisas
a carteira, o telefone, as chaves, o passe
O porta-moedas rachado que me faz perder dinheiro
sair de casa, trancar a porta, enfrentar o dia, a rua, a luz do Sol
seguir caminho para a paragem do autocarro
vagarosamente
perder o autocarro e esperar pelo próximo
observar o acumular de gente na paragem como se esta fosse um funil congestionado
entro no autocarro seguinte, encontro um espaço para mim
o funil imaginário enche-o de gente até eu não conseguir respirar mais
chegar aos barcos para Lisboa, sentar no banco mais distante e isolado que encontro
dormir acordado uma dúzia e meia de minutos
e acordar com o impacto do barco a atracar no Terreiro do Paço
Não tento furar a multidão que, esganada, quer sair pela minúscula balsa
todos ao mesmo tempo
fico para trás até ter espaço para sair sem ser esmagado por ninguém
sigo caminho até ao metro, desço todas as escadas, chego à plataforma e espero
espero
e espero e espero
enquanto a multidão se multiplica, se expande e cresce como se fosse um cancro
o comboio chega e o cancro tenta invadi-lo, célere, como que a uma célula saudável
uma vez cheia, comigo inclusivé, a carruagem fecha as portas, segue caminho até à Baixa
troco de linha e repito o processo
encontro-me em mais uma carruagem de metro que transborda pessoas, transborda cancro
chego ao trabalho, sento-me na minha secretária
esfrego os olhos, bocejo, belisco-me, espreguiço-me
desespero
tenho finalmente sono
oito horas passam, incluindo uma de almoço, nove
chega a hora de sair do meu trabalho e regresso ao metro
o mesmo processo se repete mas no sentido inverso
agora com o fedor humano como agravante
sentir-me nauseado com a interacção entre as pessoas
com os sorrisos, as vozes, as conversas
a felicidade alheia
tolerar esta condição até conseguir chegar a casa
tentar sobreviver ou não ser preso até lá
chego finalmente, hora e meia depois
descalço-me, dispo-me, sento-me na poltrona
deixo as horas passarem em frente ao monitor do computador
janto entretanto
e quando me apercebo o ser tarde já foi há muito
deito-me na cama sem a desfazer porque o calor já é demasiado
viro-me para um lado
depois para o outro
eventualmente deixo-me estar virado para cima
vejo as horas e dentro de uma hora o Sol nascerá outra vez
Pergunto-me porque não posso, como o Sol, nascer outra vez
todos os dias

Repete

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Pedro Alves
O mesmo sorumbático ciclo todos os dias. Nada de novo.
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:icondevils-n-dusts:
Devils-n-Dusts Featured By Owner Oct 11, 2014  Hobbyist General Artist
uma vez escrevi algo em relação a isto. engraçado como tudo se assemelha ao processamento de matérias numa enorme fábrica. 
Reply
:iconcarneviva:
carneviva Featured By Owner Dec 8, 2014  Hobbyist Writer
Verdade. Obrigado pelo comentário.
Reply
:iconsumarlegur:
sumarlegur Featured By Owner Jul 12, 2014  Hobbyist General Artist
e espero e espero
enquanto a multidão se multiplica, se expande e cresce como se fosse um cancro
o comboio chega e o cancro tenta invadi-lo, célere, como que a uma célula saudável
uma vez cheia


convém notar que o sol não nasce e renasce, porque isso implica morrer. o sol está lá todos os dias a todas as horas, apenas não num ângulo que te permita vê-lo.

também tu podes sair de dentro da noite e entrar no dia para ficar.
Reply
:iconcarneviva:
carneviva Featured By Owner Jul 13, 2014  Hobbyist Writer
Confere! Mas colocá-lo dessa forma ali iria estragar o "flow" da coisa. Ahah : )
Mas eu percebi o que quiseste dizer.
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July 6, 2014
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